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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Classificados - Álison Freire

Acabei de abrir uma vaga para o meu mundo, um crachá de visitação parcial com acesso restrito mas é um começo, precisa-se que seja alguém de coragem, de amarguras e mistérios, alguém não tão diferente de meu grau de insanidade só para ter certeza de que mal nenhum fará, belo e impetuoso, pode ser destrutivo necessito sempre de algo a concertar além de detestar ser a única mal quebrada, aceito artistas e poetas, dispenso racionais em excesso pelo cansaço, realistas também não preencham a ficha!
Então se por acaso se interessar envie uma carta a Deus que ele redireciona a mim durante as orações no momento qual fico em silêncio esperando sua vontade, juro responder com maior rapidez e aventura possível.
Lizzy Albert.

Terminou de ler o anúncio. Perdido nos próprios pensamentos, questionou-se. Seu perfil se adequava à posição oferecida. A vida já havia ensinado muitas coisas, tirara-lhe muito, mais até do que gostava de admitir, somente uma pessoa de coragem como ele para suportar todas as amarguras, insanidades e incertezas de uma vida como a dele.
Riu, sem nenhum motivo aparente. Quando se convive com loucos apaixonados, não se pode duvidar ou questionar coisa alguma.
Parou abruptamente seus devaneios. Crachá de visitação parcial com acesso restrito. Pensou. Isso seria bom, quem sabe assim não quebrasse essa também.
Uma única lágrima escorreu, ao lembrar-se do ultimo.
Tentara um relacionamento com uma "amiga" da escola. Já fazia anos que isso ocorrera. Nunca se recuperara completamente, porém. Mas para falar a verdade, nunca se recuperara de nenhum dos "finais infelizes". Há muito percebera que "felizes para sempre" era só mais uma frase de efeito utilizada por pessoas que se diziam artistas. Gargalhou sozinho, ao imaginar as pobres garotinhas que cresciam sonhando com o dia em que um príncipe apareceria montado em seu cavalo branco, para com um "beijo de amor" despertá-las de seu eterno sonho.
Com sorte, essa suportaria que ele despejasse aquele caminhão de sentimentos que guardava dentro de si há anos. A fraca que conhecera na escola não suportou ao menos as três primeiras palavras.
É um choque para alguns, quando se diz "Eu te amo!" ou "estou apaixonado por ti!" mesmo sem ao menos conhecer a pessoa.
Para algumas pessoas, ao simples vislumbre de outra, já é possível enxergar o fundo da alma, parecendo se conhecerem desde sempre.
Infelizmente, nem todos são assim.
Despertou-se lembrando de outro pré-requisito. Aceito artistas e poetas. Achava-se qualificado para essa tarefa também. Já havia feito alguns desenhos. E qualquer um pode ser poeta.
Basta rimar meia dúzia de palavras.
Realistas também não preencham a ficha. Aqui o negocio complicava.
Desde sempre fora obrigado a ser realista. Não se chega para uma pessoa que não conhece e simplesmente 'despeja' tudo o que sente sobre ela, como se fosse obrigada a suportar todas as dores, alegrias e temores.
Recusou essa realidade por muitas vezes. Vezes em que a sinceridade o traiu.
Vezes em que simplesmente agiu como o coração mandou. Porém não obteve o resultado desejado.
Apos muito sofrer, enfim aprendeu a ser realista. Ou pelo menos fingir ser.
E agora, encontra assim, tudo o que sempre esperou cair do céu, mas para alcança-la, era necessário esquecer o que tanto sofreu para aprender.
Decidiu arriscar tudo o que possuía mesmo assim. Preencheu a ficha.

Prezado Deus,
Segue em anexo para apreciação e avaliação a minha ficha preenchida, uma vez que estou buscando uma nova oportunidade.
Acredito que a minha experiência possa vir a ser útil para a oportunidade de seu conhecimento.
Caso considere interessante, poderemos ter um contato pessoal, durante o qual poderei detalhar melhor o meu perfil, e o nível de desafio que estou buscando.
Desde já, agradeço a atenção e aguardo um pronunciamento.

Assinou, envelopou, selou.
Em seguida, saiu para entregar pessoalmente.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Filhos e você

Estive pensando na única coisa que realmente me deixaria triste, se eu não me casasse. Filhos. A sensação de que quando você morrer, ninguém ficará para 'te substituir', para continuar o que você começou, me deixa triste.. Talvez esse seja o único motivo que me fizesse sentir medo da morte, caso ela visse me buscar hoje.
Sempre amei crianças, me dou muito bem com elas. Dizem que eu seria um ótimo pai.
Andando pela rua, passei por uma menina, é, menina pois, independente da idade, tinha um rostinho de menina, andando com uma menininha de uns dois anos apenas, talvez menos.
Cabelinho castanho, liso, de franjinha, vestia uma camisetinha e saia. A coisa mais linda que vi..
Estava falando alguma coisa, com aquela boquinha redondinha e pequenina.
Olhei para ela, em seguida para sua mãe (falo mãe pois ouvi a mocinha chama-la de filha) e pensei:
Queria uma filha também. Poderia adotar uma menina de um ano mais ou menos..
Faria tudo por ela, compraria doces, brinquedos, levaria ao parque, rolaria no chão com ela, seria 'um ótimo pai'.
Mas aí, me lembrei que ela precisaria de uma mãe também, só um pai não seria suficiente, para quem ela correria, quando ficasse bravo? Pois isso faz parte da vida, vez ou outra precisamos ser duros.
Então, pensei:
A vida poderia ser menos difícil. Poderíamos fazer um 'contrato' em prol do filho. eu seria o pai, você seria a mãe, mas não precisaríamos ficar juntos, na verdade. Tudo seria pela criança. Faríamos tudo que um pai e uma mãe fazem, corríamos pelo parque juntos, deitaríamos na grama quando estivéssemos cansados, sorriríamos como bobos, quando a criança fizesse algo engraçado..
enfim, seríamos como uma 'família feliz'
.
Daí me lembrei, eu não suportaria te ter tão próxima, sabendo que estaria ali apenas pela criança, e não por mim.
É, o ser humano sabe ser egoísta, quando quer..

Morrendo

Estou assim, morrendo aos poucos, ultimamente, sabe?
Cada postagem nova que leio, cada imagem que compartilha..
Minha consciência grita, constantemente, para que eu acabe com isso, para que eu pare com essa infantilidade de me matar aos poucos.
De nada adianta, porém, sempre ignorei e continuo ignorando esses conselhos inúteis.
Quero que a lógica e a razão vão para o inferno..
Sou tolerante enquanto a tolerância serve aos meus propósitos..
mas na verdade, bem lá no fundo, sinto uma pontinha de ódio, sabe?
Não de você, ou de gostar de você..
Talvez esse ódio seja de mim mesmo, por me sentir tão perdido, depois que te conheci..
Eu, que sempre fui uma pessoa tão determinada, objetiva..
Sempre falei em fazer faculdade, um estágio na Pixar e trabalhar na fábrica dos sonhos.
Tudo isso se quebrou dentro de mim, toda essa determinação.
Eu quero, lá no fundo. Sei disso, posso sentir esse desejo. Só não consigo encontrar o caminho para o local onde ele está guardado.
Sinto falta da época em que eu não me preocupava com nada, além dos estudos, essa vida de adulto está me sufocando.
Queria poder fugir para a terra do nunca, voltar a não ter essas responsabilidades todas.
mas isso de nada valeria, se eu continuasse sem poder ouvir sua voz, ver seu sorriso, sentir seu abraço..
[...]
É, mas quem, além de mim mesmo, para se importar com essas divagações inúteis?